sábado, 2 de abril de 2016

Ciro Gomes assume compromisso de auditar dívida pública se for presidente


“Não sou um neutro observador da cena nacional, posso até ser um candidato uma hora dessas.” Foi com essa frase que o ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes (PDT) introduziu uma das falas mais aplaudidas da tarde de ontem (30) durante o seminário Dívida Pública, Desenvolvimento e Soberania Nacional, realizado pelo Sindicato dos Engenheiros (Senge) na Pucrs.

Participante mais aclamado do painel ‘Crise Financeira, Infraestrutura e Desenvolvimento’, o pedetista assumiu publicamente o “compromisso com a auditoria da dívida brasileira”. A declaração foi dada diante da principal defensora da questão, a coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli, outra painelista que contribui para os debates em conjunto também com o ex-governador Germano Rigotto e o deputado estadual Luís Augusto Lara (PTB), que preside a Comissão de Finanças da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Irreverente e bastante entrosado com a plateia, que chamou com naturalidade de “companheirada”, Ciro falou dos bastidores político-econômicos do País, abordando acentuadamente o contexto da criação do Plano Real, que acompanhou de perto. Mas, para além dos risos que vinham do público em resposta às crônicas de personagens e passagens históricas, foi com muita seriedade que abordou problemas que, frisou, precisam ser enfrentados com urgência.

“Por que a Selic oficial está 14,25%, quando a inflação anualizada hoje é 7,3%? Ou seja, a taxa de juros real no País está crescendo diante do que seria, teoricamente, um governo populista. Durma-se com um barulho desses”, provocou. “Defender este governo é impossível. O que eu defendo, com entusiasmo, é a democracia.”

Ele aprofundou a reflexão incitando mais questionamentos: “por que o juro real está crescendo perto de 7%, e a banca já está cobrando um prêmio maior?”.

“Porque o próximo ciclo é uma crise bancária”, respondeu, acrescentando que um efeito possível decorrente do cenário seria a emissão de dinheiro por parte do governo, o que elevaria a inflação. “Os bancos já estão precificando para colocar esse dinheiro no bolso o quanto antes. Precisamos desarmar essa bomba.”

Com críticas acentuadas à política de juros adotada no País, quem iniciou o painel na tarde de ontem foi Maria Lúcia Fattorelli. Exaltada como uma das integrantes da Comissão de Auditoria da Dívida Grega e aclamada pelos demais debatedores, ela refletiu, inicialmente, sobre a riqueza humana e natural do Brasil, para demonstrar as potencialidades do País em contraste com uma política econômica que, segundo explicitou em sua explanação, serve mais ao setor financeiro. “Mais de 45% do PIB de 2014 foi para o pagamento de juros e amortização da dívida”, demonstrou, recorrendo aos dados do Orçamento Geral da União daquele ano.

Diante do atual contexto econômico, Maria Lúcia sustentou que a crise econômica é seletiva, pois não afeta todos os setores de forma equivalente. “Os bancos estão crescendo”, sinalizou, criticando na sequência as escolhas feitas para enfrentar a recessão. Tendo o ajuste fiscal como remédio, pontuou, os efeitos são o corte de gastos sociais e dos investimentos com alta do endividamento público. Nessa linha, a especialista rechaçou o argumento de que a alta dos juros está sendo adotada para combater a inflação.

“É mentira, é absolutamente mentira que a inflação brasileira é de demanda”, reforçou, posteriormente, Ciro Gomes. “A nossa moeda tende a uma crônica desvalorização frente ao dólar, isso gera imediatamente uma miragem de inflação, em que os preços relativos mudam de patamar”, justificou. “Se eu mudo o patamar de câmbio, e o trigo passa a custar R$ 4,00 por dólar e não R$ 2,00 por dólar, qual é o efeito que a taxa de juros tem sobre esse aumento? Nenhuma.”

Confira também, uma aula de política brasileira por Ciro Gomes: