quinta-feira, 14 de abril de 2016

Rede Globo aposta no golpe, mas a realidade é bem diferente


A avaliação de analistas políticos sobre o que pode acontecer na votação do impeachment, marcada para domingo (17) pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de acordo com seus próprios interesses e regras, é de que é impossível fazer uma previsão.
A negociação do governo com legendas e deputados, que já era instável, ficou ainda mais difícil de prever com o desembarque do PP da base do governo, anunciado ontem (12).
Não se sabe quantos votos o Planalto terá do PMDB, partido reconhecido hoje como o centro do golpe e com 67 deputados. Na Comissão Especial, o partido do vice-presidente da República votou dividido: quatro pelo impedimento, três contra. O PP, quarta bancada da casa (47 deputados), também mostrou divisão, com três a favor e dois contra o relatório de Jovair Arantes (PTB-GO).
Para o analista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o governo pode contar como certos os 57 votos do PT, 11 do PCdoB, seis do Psol e quase todos os do PDT, partido que pode revelar dissidências.
Contariam ainda dois da Rede, embora o partido de Marina Silva indique o voto contra o governo. Desconsiderando dissidências do PDT, o governo teria aí 96 votos. Faltariam 75 para Dilma, seja entre votos contra o impeachment, seja de abstenções ou ausentes. Queiroz diz que, hoje, o governo teria votos para barrar o impedimento na Câmara.
Fabiano Santos, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), concorda que a previsão é muito difícil, senão impossível, e que o posicionamento das lideranças não pode ser considerado como parâmetro na conjuntura extraordinária desta semana.
“As lideranças não estão controlando os votos. O calor do momento está definindo muito a opinião e a atitude dos indecisos. Tem um grupo fechado numa posição, outro na outra, e esses não vão mudar. Mas o decisivo, que é o que o governo precisa, não se sabe. Seria preciso ver qual a tendência do indeciso, que geralmente segue o líder. Isso daria um indicativo. Só que essas avaliações não estão funcionando”, diz Santos.
Para ele, “tanto pode dar um placar espetacular a favor do golpe, como um placar surpreendente em favor do governo, ou dar uma votação apertada. É difícil fazer uma previsão”.

Mídia

De acordo com o jornalista Leandro Fortes, os editoriais dos grandes veículos de comunicação se comportam como se estivesse certa a aprovação do impeachment de Dilma. O objetivo seria desanimar um lado e mobilizar o outro.
“Todo dia, em todos os portais, em todos os jornais, a mídia amanhece com a mesma notícia: o impeachment são favas contadas. Ninguém, em Brasília, muito menos nessas redações abarrotadas de marionetes, pode afirmar qual será o resultado da votação no plenário da Câmara”, diz Fortes.
Fortes considera que essa atitude indica que os defensores do impeachment não têm, neste momento, os votos necessários para afastar a presidente, por isso precisam jogar de todas as formas. “Os ratos, sem voto, tentam voltar ao poder por meio de um golpe legislativo”, afirma.
As observações de Leandro Fortes fazem sentido se analisarmos as últimas votações polêmicas na Câmara dos Deputados.
A redução da maioridade penal teve 308 votos favoráveis e também foi alvo de uma série de manobras de Eduardo Cunha para ser aprovada. Na época, a matéria contava com cerca de 85% de apoio popular, segundo levantamento do Datafolha. O impeachment de Dilma, segundo a última pesquisa datafolha, tem 61% de aceitação.

Expectativas

O professor e pesquisador Rogério Arantes, da Universidade de São Paulo, divulgou em sua página do Facebook algumas projeções baseadas no posicionamento dos partidos na Comissão Especial e de suas lideranças. Arantes projeta 294 a favor do impedimento e 216 contra. Já para Diego Escosteguy, editor da revista Época, o impeachment terá 380 votos favoráveis na Câmara.
Seja como for, a condução absolutamente autoritária de Eduardo Cunha, a união da mídia, setores do Judiciário e Ministério Público conspiram contra Dilma e projetam um cenário imprevisível, dependente de fatos novos.
A votação ter sido marcada para domingo, e com um roteiro geográfico, começando com os votos do Sul do país, deixando os deputados do Norte e Nordeste para o fim, faz parte da estratégia de Cunha de criar um ambiente favorável ao impeachment durante a votação.
com informações de Eduardo Maretti, RBA