domingo, 19 de junho de 2016

Golpismo tenta sobreviver a Michel Temer


Depois de tanto lutar para tirar o PT, o governo pós-PT se esfarela. A lista de ministros passíveis de cair é quase a lista do próprio ministério. E ainda não saiu a lista da Odebrecht, nem a delação do ex-vice da Caixa, e Eduardo Cunha ainda não falou.

O governo interino parece uma bomba de tempo, com vencimento marcado. Ninguém acredita que ele possa sobreviver muito. Até porque o desempenho de quem deveria passar tranquilidade, confiança, o próprio presidente interino, Michel Temer, só suscita incerteza. E as acusações pesam cada vez mais diretamente sobre ele. Não somente é um presidente interino ficha suja e ilegível, como acusado de corrupção.

A mídia apenas reflete os escândalos de corrupção que afloram, anunciando os próximos. O ministério parece uma gangue acuada pelo cerco policial.

A questão é: como reage a direita diante do risco iminente de não conseguir repetir os 2/3 de votos no Senado e ter que se retirar, vergonhosamente, do governo, que assumiu com ares de permanente, embora fosse interino?

Não ha muitas alternativas para a direita. Saber que Temer não resiste muito tempo aumenta o medo de que ele renuncie, por falta de capacidade pessoal de suportar tantos reveses e a ansiedade sobre o futuro imediato do seu governo.

A alternativa que a direita explora é a de tratar de derrubar a Dilma, empurrar Temer até janeiro, aí obrigá-lo a renunciar, deixando para o Congresso a responsabilidade de eleger um presidente até 2018, valendo-se desse preceito absolutamente antidemocrático da Constituição. Aí repensariam as alianças, o ministério, a forma de poder sobreviver até 2018, garantindo à equipe de Henrique Meirelles as condições de devastação econômica do que o país construiu de melhor.

Para tratar de garantir os 2/3 de votos, os coordenadores do projeto prometem aos senadores vacilantes que a renuncia do Temer deixará nas mãos deles a decisão do seu substituto, o que pode servir de moeda de troca para neutralizar perda de votos e eventualmente manter o placar da primeira votação.

As dificuldades não são pequenas. Em primeiro lugar, não se vê como um governo como o de Temer possa se manter muito tempo. As próximas semanas prometem ser devastadoras em termos de delações, denúncias e suas consequências até mesmo sobre o próprio Temer. Que terminaria de perder as condições de governar.

Em segundo lugar, a Dilma recuperou capacidade de iniciativa política, ancorada nas imensas manifestações de apoio que tem recebido, que contrastam de forma radical com as de rejeição ao Temer e seu isolamento pessoal, sem possibilidade de aparecer publicamente sem ter manifestações de repúdio.

A proposta do plebiscito e o lançamento da carta de compromisso abrem perspectivas de derrota do golpismo, que não são fáceis de controlar pelo governo interino. O raciocínio deste era que a passagem do tempo contaria a favor da sua consolidação, mas o movimento tem sido na direção oposta e o temos dos golpistas é que se chegue ao momento da nova votação do Senado num cenário ainda pior para os golpistas.

A direita brasileira, como a de todos os países na era neoliberal, morre de medo de eleição. Mesmo ancorada em pesquisas em que há favoritismo de Lula em todas as alternativas no primeiro turno, encontra dificuldades no segundo turno. Sabem que Lula numa campanha eleitoral tende a ser arrasador, ainda mais que a saudade dos brasileiros não é de outro governo, senão o de Lula. Daí a necessidade de tentar tirá-lo da vida política, da forma que seja. Se conseguem ou não, dependem em parte as manobras da direita.

O certo é que ninguém mais dá muito tempo de sobrevivência a Michel Temer. Enquanto possibilitar as ações devastadoras de privatização do patrimônio nacional – já se anunciam ofertas pela BR Distribuidora -, de quebra dos direitos dos trabalhadores, de diminuição drástica dos recursos para políticas sociais, de retomada do Estado mínimo e da centralidade do mercado, Temer serve. Se as instabilidades do seu (des)governo continuarem a dar a pauta política nacional e as próximas denúncias – especialmente as da Odebrecht – passarem a afetar até mesmo a maioria do governo no Congresso, Temer terá se tornado inservível.

Conseguirá o golpismo sobreviver ao interino?


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