quarta-feira, 20 de julho de 2016

Se as reuniões de Temer agendadas por Cunha fossem normais, não seriam secretas


Por Kiko Nogueira - A formulação de Romero Jucá — “Michel é Eduardo Cunha” — fica mais evidente do que nunca na troca pornográfica de mensagens entre o ex-deputado e o ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo.

A simbiose entre os dois, a cumplicidade e a afinidade absoluta nos propósitos é algo que merecia ter sido tema de algum dos poemas do interino — se é que, inconscientemente, isso tudo não está lá descrito.

De 2012 a 2014, Cunha operou pelo menos três encontros com o então vice, que hoje se vê não era nem um pouco decorativo, ao menos nas artes da conspiração e do tráfico de influência.

O Globo deu a matéria e, evidentemente, a escondeu. Inútil o exercício de imaginar como seria se fosse alguém do PT. As reuniões foram todas clandestinas, sem rastro na agenda de Temer, por razões óbvias.

Reproduzo um trecho:
Em 30 de julho de 2014, Cunha escreveu: “Tenho que lhe falar”. O executivo respondeu: “Falo com certeza”.
Logo depois de discutir o melhor local e horário para o encontro, Cunha anotou: “Você pode sair e ir ao Jaburu me encontrar e ao michel se quiser”
“Que horas no michel?”, perguntou Azevedo. “Michel eu vou às 12 e fico até 14h30”, replicou Cunha. O executivo finalizou: “Chego às 14h, ok?”
“Ok”, respondeu Cunha. Meia hora depois, o deputado corrigiu:
“Não será mais Jaburu e sim gabte da vice”. A resposta de Azevedo foi “Ok”.
Michel Temer é fácil. Sempre foi. Com quantos outros empresários não rolou essa tabelinha? O que mais Cunha negociou em nome de Temer e vice versa?

O pedaço mais significativo dos diálogos se refere um evento em 4 de abril de 2012. Cunha escreve para Azevedo: “O michel cansou de te esperar e foi embora. fiquei só eu”.

Eis a resposta: “Você é que me interessa. O Michel é um grande líder e eu não poderia incomodá-lo. Mas na verdade não sabia que ele estaria aguardando com você. Estou chegando mas tem alguma merda acontecendo na cidade. abs”.

“Você é que me interessa” é uma frase de caminhão que poderia muito bem estar em “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”, de Odair José.

Dá a dimensão da parceria, da promiscuidade e do quanto o negociante sabia que, ao agradar Cunha e falar com Cunha, estava falando e agradando Michel. O Michel disponível e submisso que esperou até cansar. A campanha dele em 2014 doou 4,7 milhões a candidatos e diretórios com recursos da OAS e da Andrade Gutierrez.

O festival de mentiras que vem depois do flagrante seria vergonhoso não se tratasse desses personagens.

Temer tinha com Azevedo um “relacionamento institucional e não precisavam de intermediários”. Uma conversa com Azevedo não entrou na agenda oficial por “questões técnicas” (?!?). Ele também não tem memória das reuniões em 2012 (o mesmo ano em que teria pleiteado dinheiro de propina a Sérgio Machado para ajudar Gabriel Chalita em São Paulo).

O melhor desinfetante ainda é a luz do sol. Especialmente com tipos que se acostumaram a viver na sombra.


Confira também, Ciro Gomes faz paralelo entre o golpe de 1964 e o de 2016: