terça-feira, 2 de agosto de 2016

Temer é a continuação da ditadura de 64


O Brasil nunca mais foi o mesmo depois da ditadura de 64.

A educação nunca mais foi a mesma.

Nos anos 60 as escolas públicas e gratuitas eram as melhores. Grandes professores ensinavam os alunos a pensar por si próprios e formaram grande profissionais que foram sufocados pela ditadura. Agora as escolas públicas e gratuitas são as piores. Os professores, mal estimulados e mal pagos se preocupam mais em fazer caber seu orçamento dentro do salário minguado do que com o alimento que deveriam fornecer aos alunos.

O cinema nunca mais foi o mesmo.

O mundo se deslumbrava com grandes obras realizadas por nossos grandes cineastas, "O Pagador de Promessas" der Anselmo Duarte, "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "Terra em Transe", de Glauber Rocha, "Vidas Secas" e "Rio, Zona Norte" de Nelson Pereira dos Santos, "O grande momento" e "A hora e a Vez de Augusto Matraga", de Roberto Santos. Hoje predominam comediazinhas sem graça ou filmes policiais agressivos realizados por cineastas mais preocupados com bilheteria do que com o conteúdo.

A televisão nunca mais foi a mesma.

Emissoras comerciais, como a TV Tupi levavam ao ar grandes peças de teatro, de Sheakspeare, de Sófocles, de Jorge Andrade; quem apresentava o talk-show da TV Record era o brilhante teatrólogo Silveira Sampaio, autor de "A infidelidade ao alcance de todos" e outras comédias com graça, inteligência e humor; a TV Excelsior levou ao ar uma entrevista com Jean-Paul Sartre com cinco horas de duração, em francês e apresentava filmes da nouvelle vague na mesma época em que eram lançados na França; Bibi Ferreira apresentava o "Brasil 61" (mal comparando o "Fantástico" da época) no qual apareciam Jorge Amado, Dorival Caymmi e outros expoentes da nossa cultura, pois ainda havia cultura no Brasil. O divisor de águas foi a fundação da TV Globo, em 1965, que nasceu com ajuda da ditadura e retribuiu ajudando a ditadura a permanecer por 20 anos e daí em diante começaram a predominar as novelas, os programas de fofocas e todo esse lixo que ainda hoje é "campeão de audiência", com destaque para a lavagem cerebral das crianças brasileiras promovida pela Xuxa, as barbaridades do Faustão e do Luciano Huck, os programas de humor imbecil como "Pânico", e seus filhotes, humoristas histéricos e insuportáveis como Fábio Porchat, Leandro Hassum e tantos outros que mais se impõem pelos gritos do que pela sutileza, talk-shows comandados por descerebrados como Danilo Gentili, com o estrelato de figuras de salão de cabeleireiro, como Sabrina Sato, com programas que ofendem a inteligência de cachorros, como "Big Brother", com a ascensão de trogloditas como Ratinho.

A música nunca mais foi a mesma.

Nos anos 60 brilhavam estrelas como Vinicius de Moraes, como Nara Leão, Edu Lobo, Baden Powell, Chico Buarque, Sidney Miller, Jards Macalé, Luiz Melodia, Milton Nascimento, todos esses que – os que continuam vivos – foram colocados na prateleira dos esquecidos e proscritos, que produziram a bossa-nova, estrelas que levantavam e emocionavam plateias com versos contundentes, como Geraldo Vandré e que hoje cederam espaço a oportunistas sem talento que atendem por nomes abjetos, como Wesley Safadão, que têm mais pernas do que voz, como Anitta, como Ivete Sangalo, como toda a coleção de sertanejos e axés que exaltam a cerveja e o sexo sem amor.

O teatro nunca mais foi o mesmo.

Tínhamos grandes companhias teatrais lideradas por Cacilda Becker, Tônia Carrero, Nidia Licia, Maria Della Costa, Sergio Cardoso, Renato Borghi, Ítala Nandi, Fregolente, Italo Rossi que lotavam as salas com grandes montagens de Becket, de Durrenmatt, de Nelson Rodrigues, de Gianfrancesco Guarnieri, tínhamos o Teatro de Arena, o Teatro Oficina, o Ruth Escobar, tínhamos "Cemitério de Automóveis", "O Balcão", "Stalin no Terceiro Mundo", "A Alma Boa de Se-Tsuan", "Esperando Godot", "Orfeu do Carnaval", "Eles não usam black-tie", que não tinham nem precisavam de Lei Rouanet porque viviam dos aplausos de um imenso público todos os dias da semana.

E hoje proliferam as peças ligeiras, nos fins de semana, escritas por, dirigidas por e estreladas por gente, salvo raras exceções, sem talento e sem estofo, textos sem conteúdo, cenários sem arte, encenações amorfas, opacas que entram e saem de cartaz com a mesma rapidez com que são esquecidas.

A literatura nunca mais foi a mesma. Nunca mais nasceram Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Campos de Carvalho, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Antônio e, se nasceram, as editoras os ignoraram, preferindo publicar best-sellers que estouraram em outros países e não têm nada a ver com nossa cultura.

O Brasil nunca se recuperou da ditadura de 64.

Não esperamos nada de Sarney nem de Collor nem de Itamar, mas tivemos esperanças em Fernando Henrique Cardoso, que foi uma grande frustração, não trouxe de volta a cultura que perdemos; tivemos esperanças em Lula que sacudiu o país, tirou os pobres dos fundões, mas não trouxe de volta as boas escolas públicas e gratuitas, a grande música, o grande cinema, a grande literatura; tivemos esperanças em Dilma, mas ela fez mais do mesmo e as escolas continuaram abandonadas, o cinema degringolou, a cultura foi pro brejo. No entanto, Fernando Henrique, Lula e Dilma tentaram apagar todo o mal que a ditadura de 64 fez ao Brasil e aos brasileiros. Tentaram incutir energia, alegria e perseverança, nos disseram que tudo poderia ser melhor. Eles, ao menos, tentaram levar o país para frente.

Agora é diferente. Temer é um divisor de águas.

Ele não está tentando recuperar o país do baque de 64. Ao contrário, está destruindo o pouco que seus antecessores fizeram nos trinta anos pós-ditadura. Está nos dizendo que não há luz no fim do túnel. Está trazendo de volta aqueles dias sombrios que emudeceram nossos artistas, que silenciaram suas obras, que conspurcaram suas ideias. Está massacrando nossos sonhos. Está dizendo que devemos ficar quietos.

Temer é a continuação da ditadura de 64.



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