quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Fernando Haddad sobre o PT: "Não basta distribuir renda"

Resultado de imagem para haddad

Nexo - O sr. faz alguma autocrítica partidária em relação às acusações de corrupção recebidas pelo PT?

FERNANDO HADDAD: Faço, lógico. Eu tenho dito em entrevistas que o PT tava muito fixado na questão do desenvolvimento social, sabe. A ideia de crescer com melhor distribuição de renda. E achou que isso resolvia o Brasil. O PT achou que isso resolvia o Brasil. Quando eu digo o PT eu tô dizendo os dirigentes.

'A maior lição que a esquerda pode ter desse período é a seguinte: não interessa qualquer Estado'



No meu caso, eu escrevi um artigo em 2003 dizendo que o maior desafio do PT seria republicanizar o Estado. E que o Estado brasileiro é patrimonialista e precisava ser republicanizado. E eu entendo que essa tarefa foi relegada a um segundo plano.

O PT imaginou que com a estrutura do Estado brasileiro historicamente cristalizada no Estado patrimonialista, ele poderia por dentro desse Estado patrimonialista promover arranjos que favorecessem as classes populares. O que de fato aconteceu. Mas a reforma do Estado que não veio acabou comprometendo o projeto.

Então a maior lição que a esquerda pode ter desse período é a seguinte: não interessa qualquer Estado, muitas vezes a gente acha que o Estado... De novo o negócio da rua: você romantiza alguns: é a rua, é o Estado. Que rua? Que Estado? Isso conta. E a gente não se perguntou que Estado que nós devíamos legar. Não basta distribuir renda e melhorar as oportunidades econômicas. Você tem que ter um compromisso com a República. E a republicanização do Estado era uma tarefa à qual... nós demos não nenhuma, mas pouca atenção.

Porque efetivamente nós criamos a Controladoria, nós fortalecemos a Polícia Federal, nós demos autonomia para o Ministério Público, tudo isso é verdade. Mas foi pouco diante do descalabro que é a organização estatal no Brasil. A interface do público com o privado, o déficit de republicanismo das instituições, isso tudo deveria também ser objeto da nossa ação.