quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Carta aos senadores do PT: Cargo nenhum vale a perda da confiança dos trabalhadores


Carta aberta aos parlamentares do PT sobre a eleição das mesas diretoras do Congresso


Senhores deputados e senadores petistas.

Filiado de base do PT do Rio de Janeiro, venho por meio desta lhes dizer que discordo e repudio veementemente a resolução do Diretório Nacional sobre a eleição das mesas diretoras do Congresso, que libera os senhores parlamentares para um criminoso conchavo com os inimigos da classe trabalhadora, no qual se pretende oferecer apoio a algum dos candidatos da atual base governista em troca de um mísero, inútil e vergonhoso assento ao lado dos estupradores da democracia. Este acordo que se ensaia com os golpistas é uma alta TRAIÇÃO que os filiados e eleitores do PT não aceitam e não perdoarão jamais, caso se materialize.

Venho, portanto, por meio desta, exigir dos senhores deputados e senadores petistas que não virem as costas e não se façam de surdos à revolta que já cresce e se alastra na base social do PT. Não façam como aqueles 45 membros do Diretório Nacional que lhes deram carta branca para desmoralizarem de vez o partido perante o povo brasileiro, fazendo com que perca a credibilidade que lhe resta.



Transigir com os golpistas na presente disputa política é conciliar com eles, o que representa, na prática, um reconhecimento público de uma legitimidade que eles não têm, como o PT até agora vem denunciando aos trabalhadores. Só que os discursos, por mais corretos que sejam, perdem valor quando não têm a correspondência dos atos, quando não há coerência entre o que se diz e o que se faz, quando as ações desmentem ou, simplesmente, tornam questionáveis o sentido e a sinceridade das palavras. Afinal, se são golpistas e queremos derrotá-los, então por que lhes daremos votos, se os votos contribuirão para legitimá-los e torná-los vitoriosos?

Ouçam, senhores, a voz dos filiados da base deste partido e seus eleitores. Nós não queremos que os parlamentares que elegemos contribuam com seus votos para a eleição de candidatos à presidência das mesas diretoras do Congresso que foram executores do golpe de Estado e que estão inteiramente comprometidos com a aprovação da pauta antinacional e antipopular do governo ilegítimo. Peço que reflitam muito bem sobre as prováveis consequências da decisão que estão prestes a tomar. Não é apenas o desempenho do PT na luta parlamentar que está em jogo, o que está em jogo é a confiança da base social do PT nos dirigentes do partido e nos seus parlamentares.

Nada favoreceu mais à manipulação da opinião pública, à conspiração e à consumação do golpe de Estado do que a diluição da identidade política do PT em meio às identidades dos partidos burgueses da coalizão mantida durante os governos de Lula e Dilma. A aliança com os partidos burgueses, ao longo de 13 anos, exigiu do PT concessões nos campos ético e programático que o igualaram, aos olhos dos trabalhadores, a estes partidos, dos quais o PT também tornou-se importante avalista perante as massas, quando a eles se associou nas campanhas eleitorais e nas gestões governamentais.

Toda mistura partidária, sem critérios ideológicos e programáticos muito claros, contribui para a confusão política das massas, e a confusão política das massas é campo fértil para se plantar mentiras e colher equívocos. Da compreensível dificuldade dos trabalhadores de perceberem as diferenças entre o PT e os partidos da coalização que ele encabeçava, aproveitaram-se burguesia e direita para ludibriá-los, convencendo-os de que o PT era autor de todos os males da sociedade e com isso ganhando o seu consentimento para defenestrar o partido do governo legitimamente conquistado em 2014.

Pois um eventual apoio do PT a um destes candidatos golpistas às presidências das mesas diretoras da Câmara e do Senado terá como efeito exatamente o aumento da desconfiança dos trabalhadores em relação ao único partido de massas da esquerda, que poderia e deveria ser instrumento da sua luta, dificultando e retardando a necessária e urgente resistência ao avanço, nestas duas casas legislativas, da pauta antinacional e antipopular que motivou o golpe.

É hora, portanto, de o PT começar a emitir sinais claros e inequívocos que ajudem a classe trabalhadora a identificar, com o máximo de precisão possível, quem é quem, quem quer o que e quem está do lado de quem neste verdadeiro caos que se instalou na política brasileira, desde a eleição de Dilma Rousseff. É hora de evitar dubiedades, de demarcar campos e afirmar diferenças, de iluminar a cena política e oferecer aos trabalhadores uma visão bastante nítida das posições e da movimentação dos seus atores. Isto significa que o PT não pode mais se permitir assumir, como vinha fazendo, posicionamentos que o igualem ou que o associem aos partidos burgueses que atentaram contra a democracia e que se lançam agora em feroz ofensiva contra os empregos, salários e direitos dos trabalhadores e contra a soberania do Brasil sobre os recursos naturais do seu território.

Enganam-se os que pensam que o palco único da luta de classes é o parlamento, onde os trabalhadores têm tido ínfima representação, e engana-se também quem acha que o parlamento seja, da luta de classes, o palco principal. O palco principal da luta de classes é, na verdade, o ambiente das ruas e praças das cidades de todo país, onde as massas podem manifestar-se, potencializando as vozes minoritárias que lhes representam nas tribunas das casas legislativas. É, portanto, às massas trabalhadoras que os deputados e senadores do PT devem falar e associar-se agora e não à corja corrupta de parlamentares que põe seus mandatos a serviço da burguesia em troca de gordas propinas.

Uma cadeira na mesa diretora da Câmara ou do Senado não vale a perda de confiança, o completo descrédito em que cairá o PT se prosperar o conchavo autorizado pela resolução aprovada por 45 membros do Diretório Nacional. Os 30 companheiros que votaram contra é que estavam certos e foram eles que melhor expressaram o entendimento e a vontade da imensa maioria dos filiados e eleitores do Partido dos Trabalhadores. Cabe agora aos deputados e senadores do PT corrigirem o equívoco dessa estúpida e desastrosa resolução da nossa instância máxima dirigente. Porque se o Diretório Nacional autorizou o conchavo com os golpistas, nós da base do PT dizemos NÃO AO CONCHAVO e nenhum voto petista aos golpistas!

Termino citando e comentando as lúcidas palavras recentemente ditas pelo ex-ministro da justiça e subprocurador geral, Eugênio Aragão. Ele disse:

Nós podemos ser oposição a um governo eleito legitimamente. Mas não podemos ser oposição a um governo golpista. Não se faz oposição a um governo golpista. Se combate. Eles não são nossos adversários. São inimigos.”
O Brasil não vive, realmente, uma situação de normalidade institucional. A burguesia e a direita estabeleceram no país um regime de “vale tudo” que transformou a disputa política numa verdadeira guerra, em que tratam o PT como inimigo a ser destruído a qualquer custo e não como um adversário a ser derrotado por meios previstos no ordenamento legal e constitucional do país. A razão da declaração desta guerra é que querem impor ao Brasil um programa de governo que a classe trabalhadora jamais aprovaria numa eleição e veem o PT como maior obstáculo, por ser o único partido de massas da esquerda e por ter o PT em seus quadros a maior liderança popular do país, que é o ex-presidente Lula.

Estamos, pois, senhores deputados e senadores, numa guerra política que não iniciamos, mas que sempre foi bastante previsível, pelos compromissos históricos que temos com a classe trabalhadora e com o ideal de transformar a sociedade, no rumo do socialismo democrático. Por causa destes nossos compromissos, direita e burguesia sempre nos trataram com desconfiança, animosidade e um ódio mal disfarçado, que cedo ou tarde explodiria em hostilidades mais ostensivas.


Nós, do PT, de fato, não iniciamos a presente guerra política no Brasil, mas esta guerra nos induz, inevitavelmente, a um saudável reencontro com a vocação de guerreiros que sempre tivemos. Porque o PT não foi criado, em verdade, para acomodar-se e conviver pacificamente com as injustiças da sociedade capitalista, o PT foi criado exatamente para transformar a sociedade através do combate político duro e permanente contra os que promovem e tiram proveito dessas injustiças.

Estamos, portanto, numa guerra que não iniciamos, mas que temos o dever de enfrentar com todo empenho, cientes de que, em qualquer guerra, colaborar com o inimigo é traição, e de que a traição, em qualquer guerra, é crime que não tem perdão. Pensem nisso, companheiros deputados e senadores, no custo político para si mesmos de uma decisão que afronte à vontade da maioria dos filiados e eleitores do PT, mas pensem também e sobretudo nos prejuízos que este conchavo com os golpistas pode causar ao partido, à esquerda brasileira e à classe trabalhadora.

Saudações petistas.

Por Silvio Melgarejo, professor de música, filiado de base do Rio de Janeiro (RJ), para a a Tribuna de Debates do 6º Congresso. Saiba como participar.



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