quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Lembram-se da conversa entre Machado e Jucá? Trechos envolvendo tucanos ‘graúdos’ não foram vazados

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Jornal GGN: A gravação das conversas do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e caciques do PMDB, em maio do ano passado, paralisou o mundo político no ápice do impeachment da então presidente Dilma Rousseff. 



Entre os áudios de Machado com José Sarney (AP), Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR), alguns não foram vazados: os que incriminam diretamente Aécio Neves (PSDB-MG), José Serra (PSDB), Tasso Jereissati (PSDB), Aloysio Nunes (PSDB-SP), Cássio Cunha Lima (PSDB–PB) e Ricardo Ferraço (PSDB-ES).


O jornal que teve acesso aos áudios, a Folha de S. Paulo, divulgou outros trechos dos áudios e transcrições. O conteúdo polêmico, que dava conta de um “grande pacto nacional” entre membros do PMDB, articulando para “estancar a sangria” e obstruir a Operação Lava Jato, envolvendo ainda nomes do Judiciário, foi suficiente para alimentar as manchetes dos meses seguintes.

[VÍDEO] Cunha entrega esquema de Temer a Moro 

Até o momento, o nome do PSDB aparecia como o partido “interessado” na paralisação das investigações, indicando inclusive esquemas de campanha de Aécio Neves que contaram com caixa dois para o financiamento. Entretanto, não apontava nomes dos políticos que articularam, juntamente com Renan, Jucá, Sarney e Machado, na obstrução da Justiça, culminando no impeachment.

No mesmo arquivo entregue por Sérgio Machado aos investigadores e que vazou à imprensa há um trecho de conversa entre Jucá e o ex-presidente da Transpetro narrando um encontro, já então ocorrido, entre políticos do PSDB e do PMDB para apoiar a obstrução da Lava Jato.

O diálogo inicia com Romero Jucá informando que conversou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes de o Senado aceitar o impeachment. Lula intermediava junto a parlamentares do PMDB para que a sigla não rompesse com o partido, o PT, diante da crise política vivida pelo governo de Dilma Rousseff.


“A gente conversou um pouco com Lula sozinho, o Lula tentando uma saída [para a crise política]. Como é que sai, e como é que sai, porra, duma porra dessa? O governo nessa situação. O que a gente [PMDB] fez foi: nós não vamos romper [com o PT] no sábado, conseguimos segurar pra fazer o negócio sobreviver em unidade do partido”, disse.

Em seguida, Jucá avisava a Machado que com “o negócio [a situação política] meio amorfo, nós vamos receber as moções [de impeachment]”. “Mas não vamos votar essa porra [processo de impeachment], entendeu? Até num determinado momento poder reunir [os partidos interessados] pra votar, se precisar, então a gente fica num gatilho. Mas não tem que gastar [a armadilha] agora, nem queimar agora essa porra, nem o Michel [Temer], entendeu?”.

Ainda que com a intermediação de Lula para evitar que o Senado Federal recebesse o impeachment, Romero Jucá deixou claro a Machado que o partido concordou em esperar, mas aguardava apenas o momento certo para a aceitação do processo que culminaria na queda de Dilma Rousseff.

Após a explicação dada a Machado, o senador peemedebista admitiu que, apesar da conversa com o ex-presidente na tentativa de salvar o governo Dilma, os políticos se reuniram com o PSDB, em uma noite de jantar na casa do ex-governador e senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Na ocasião, decidiram que o PMDB e o PSDB iriam se unir, e fechariam o tal acórdão nacional, que dias após gerou a queda definitiva de Dilma.

“Marcamos de noite um jantar com TASSO, na casa do TASSO. Fui eu, RENAN, EUNÍCIO, o TASSO, o AÉCIO, o SERRA, o ALOYSIO, o CÁSSIO, o RICARDO FERRAÇO, que agora virou psdbista histórico, aí conversamos lá. O quê que a gente combinou? Nós vamos, nós temos que tá juntos pra dar uma saída pro Brasil. Se a gente não tiver unido aí, com um foco na saída pra essa porra [paralisação da Lava Jato], não vai ter. E se não tiver, eu disse lá, todos os políticos tradicionais estão fudidos. Porque os caras [tucanos] disse: ‘não no TSE, se cassar [a chapa Dilma e Temer]’. ‘Ô AÉCIO, deixa eu te falar uma coisa, se cassar [a Dilma] e tiver eleição, nem tu, nem SERRA nisso aí, nenhum político tradicional ganha essa eleição, não”.

Somente após narrar esse encontro, é que Sérgio Machado questionou a Jucá se realmente “tinha caído a ficha” do PSDB. E o senador peemedebista então respondeu: “Caiu a ficha! Ontem eles disseram isso” – trecho então vazado pelo jornal Folha de S. Paulo.

INTERPRETAÇÃO REVERSA DA PROCURADORIA


Entretanto, apesar da clara citação, não divulgada pela imprensa no último ano, a delação premiada do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado – nome do PMDB, mas que também carrega histórico junto ao PSDB, como deputado federal e senador -, reverte as provas trazidas com os áudios e inclui o PT como suposto interessado na obstrução da Lava Jato.

Machado conta aos procuradores da República que “a estratégia para embaraçar e impedir o avanço da Operação Lava Jato passa por um acordo amplo, envolvendo diversos partidos políticos, em especial PMDB, PSDB e alguns integrantes do PT, como Dilma e Lula”.

Ainda que as transcrições e os áudios de conversas de Machado com Jucá, Renan e Sarney não mostrassem medidas de Lula ou de Dilma, ou sequer narrasse diálogos de interesse de ambos em paralisar a Operação, o procurador-geral Rodrigo Janot comprou a tese de Machado:




Os trechos que seguem foram os detalhados, acima, pelo GGN. Dessa vez, é Machado quem conta aos investigadores a sua versão: “que o senador Romero Jucá confidenciou sobre tratativas com o PSDB nesse sentido facilitadas pelo receio de todos os políticos com as implicações da Operação Lava Jato, que essas tratativas não se limitavam ao PSDB, pois quase todos os políticos estavam tratando disso, como ficou claro para o depoente”.

Além de citar direta e especificamente as tratativas de Romero Jucá, Renan Calheiros, José Sarney, com José Serra e Aécio Neves, Machado também menciona negociatas com José Agripino (DEM-RN) e Fernando Bezerra (PSB-PE), estes dois últimos o senador Renan Calheiros contou que “combinaram de botá-lo na roda [do acórdão]”. “Eu disse ao AÉCIO e ao SERRA que no próximo encontro que a gente tiver, tem que botar o Zé AGRIPINO e o FERNANDO BEZERRA”, disse Renan a Machado.

A única citação que o ex-presidente da Transpetro conseguiu realizar sobre o envolvimento do PT, foi uma conversa com os peemedebistas Renan e Sarney, em que Machado sugeriu o raciocínio, em sua opinião: “Não dá para ficar como tá. Nós temos que encontrar uma solução. Se não, vai todo mundo. Como moeda de troca é preservar o Lula. [Senão], vai todo mundo de roldão”.

De forma generalizada, assim explicou Machado aos procuradores da República: “O depoente tem a esclarecer que se referia à necessidade de paralisar a Operação Lava Jato, inclusive em face do ex-presidente LULA, ou todos os políticos seriam alcançados, haja vista o modelo de financiamento de campanhas eleitorais praticado há décadas no Brasil”.