domingo, 26 de fevereiro de 2017

Por que Doria não tira Lula da mente e da boca


O destempero e a falta de inteligência emocional na reação de Doria diante da hostilidade de foliões em Pinheiros tinha um elemento barbudo a mais.


A alturas tantas, no final de seu tour desastroso, um rapaz o xingou. Estavam perto do bar Pirajá, na Rua Pedroso de Morais. Doria ficou irritado. Enquanto entrava no carro, visivelmente transtornado, fez menção de partir para a briga.



E então chamou o outro de “Lula”. Antes de um vexame maior, os assessores o colocaram no veículo e todos partiram rumo ao desconhecido.

Doria tem uma fixação com Lula que é parte estratégia, parte patologia.

Ele se utilizou à larga do antipetismo e do antilulismo para se eleger em São Paulo. Em abril do ano passado, falou em entrevistas que Lula deveria participar da campanha “antes de ser preso”.

Em outubro, bravateou que gostaria de “visitar Lula em Curitiba”, quando lhe levaria chocolates e “um cisne”.

Em janeiro, já na prefeitura, com uma mudinha de árvore na mão, fantasiado de jardineiro, sua equipe de filmagem atrás, afirmou: “Vou dedicar o plantio dessa muda ao Lula, Luiz Inácio Lula da Silva, o maior cara de pau do Brasil. Presente para você, Lula.”

Voltou à carga na semana passada, enquanto fingia varrer a Faria Lima. Já virou uma marca registrada.

A diferença entre o veneno e o remédio é a dose.

Doria não sabe parar. Sua claque é paga para gostar de suas performances. Fora desse círculo, ninguém aguenta um palhaço fazendo sempre o mesmo número.




No Sambódromo, ouviu o coro “vai tomar no cu”.

Até o coxinha começa a se perguntar se seu prefeito não tem nada melhor a responder ou por que recorre tanto ao nome do inimigo. Um menino mimado que, ao invés de “feio, bobo e chato”, pronuncia “Lula” quando não tem saída numa discussão.

É, igualmente, uma bandeira que não consegue esconder. Dá uma medida do espaço que Lula ocupa em sua vida. Fica mais constrangedor quando lembramos que não há contrapartida — Lula nunca cita Doria.

Em entrevista à BBC Brasil, o guru de JD, Robert Greene, ofereceu-lhe uns conselhos. Sugeriu que ele “entregue mais. Se fantasie menos e entregue mais. Precisa se comprometer e ser muito prático – e não viciar na atenção que você acaba tendo ao dizer coisas ousadas”.

As cacetadas em Lula são tão farsescas quanto o guarda roupa do “gestor”. Em ambos os casos, o prazo de validade já venceu. Resta ao sujeito trabalhar. E aí é que são elas.