segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pravda: CIA sempre quis o petróleo brasileiro


Do Jornal Pravda - Relatórios disponibilizados pela CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) desde o final do ano passado permitem traçar um histórico do monitoramento a respeito da exploração do petróleo brasileiro.


Praticamente todos, desde a década de 1950, ressaltam as possibilidades do Brasil alcançar a autossuficiência e também de abrir o setor do petróleo para empresas estrangeiras.

Preocupação com parceria entre Brasil e URSS


 

Alguns documentos mostram que os Estados Unidos acompanhavam com atenção as negociações entre Brasil e União Soviética no setor petrolífero pouco antes do golpe de 1964.

Na virada da década de 1950 para a década de 1960, a URSS estava expandindo suas exportações de petróleo para os países capitalistas. Um documento datado de 9 de junho de 1960 evidencia a preocupação da CIA com a atividade soviética na América Latina.

Moscou "aparentemente está usando o petróleo como um meio para explorar o sentimento nacionalista contra os investimentos dos EUA na indústria petrolífera da América Latina e para romper os padrões de mercado das companhias estadunidenses na área", comenta o informe.


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O mesmo relatório aponta que o Brasil havia importado em 1959 cerca de 420 mil barris de óleo cru da URSS em troca da exportação de cacau. Um acordo de dezembro do mesmo ano havia proporcionado ao país sul-americano mais de 4 milhões de barris anualmente durante três anos (aproximadamente 4% de todo o consumo brasileiro), embora o Brasil não tivesse certeza se completaria o acordo.

O serviço de inteligência dos EUA destaca que, em 1959, "uma grande delegação" de negócios do Brasil, incluindo membros da Petrobras, foi a Moscou para ver se era possível adquirir equipamento soviético especializado. Depois, quatro técnicos soviéticos visitaram São Paulo para aconselhar uma empresa privada a extrair xisto.

Outro documento, de 28 de agosto de 1961, aponta que "os vastos depósitos de óleo de xisto no Brasil continuam a ser de interesse da URSS". Embora a Petrobras tivesse pedido um empréstimo do Export-Import Bank dos EUA para financiar a construção de uma usina piloto de óleo de xisto no Paraná, engenheiros da Petrobras visitariam o país socialista para estudar as operações soviéticas relacionadas com o óleo de xisto.

Logo depois, a Companhia Industrial de Rochas Betuminosas (CIRB) contratou técnicos soviéticos para fazerem estudos geológicos e técnicos a fim de determinar a viabilidade do desenvolvimento comercial dos depósitos de óleo de xisto no Vale do Paraíba, em São Paulo. Pelo acordo, em meados de 1962 a União Soviética forneceu equipamento e assistência técnica para a construção da usina de produção de gás de xisto em Pindamonhangaba, município da região. No final de 1960, especialistas soviéticos já haviam ficado três meses no local, com a aprovação do antigo Conselho Nacional do Petróleo.

Estimava-se que o sudeste do Brasil continha reservas de 102 bilhões de barris de óleo de xisto, menor apenas do que as dos Estados Unidos.

Relatório de 16 de março de 1962 (Arquivo: CIA)

A produção brasileira de petróleo vinha aumentando a cada ano, embora o país necessitasse importar a maior parte do que consumia. Mesmo assim, a CIA comentava, em 16 de março de 1962: "as condições parecem favoráveis para o desenvolvimento de óleo de xisto."

A URSS utilizava o óleo de xisto na fabricação de produtos químicos a partir de seus derivados e também em locomotivas e usinas termoelétricas.

"A capacidade soviética para fornecer assistência tecnológica no desenvolvimento de uma indústria de óleo de xisto no Brasil é baseada em mais de 40 anos de experiência na área, incluindo produção de petróleo, gás e produtos químicos do xisto e seu uso como um combustível sólido", relata a agência.

Assim, o Kremlin poderia fornecer ao Brasil qualquer tipo de equipamento para a indústria de óleo de xisto encontrado no Ocidente e outros exclusivamente soviéticos. A União Soviética também era o único país que desenvolvia uma indústria de gás de xisto.

A exploração das reservas de óleo de xisto era levada em consideração por altos oficiais, possivelmente com o auxílio dos EUA ou da URSS, segundo informou um agente em 23 de março de 1962. "Esse programa, se prometer ser bem-sucedido, teria forte apoio de líderes políticos e militares que há tempos se opõem à dependência de fontes estrangeiras de petróleo."

A preocupação da concorrência com a URSS ainda é mais acentuada, no mesmo relatório, afirmando-se que o governo do então presidente João Goulart tem dado continuidade à política "de desenvolver relações próximas com o bloco sino-soviético" do governo anterior de Jânio Quadros, a quem o agente se referiu como tendo desempenhado "atividades anti-EUA".

Quadros assumira o mandato em janeiro de 1961 e renunciara apenas sete meses depois, denunciando inclusive a participação estrangeira em conspirações contra ele. João Goulart, então vice-presidente, tomou posse em seu lugar e dois meses depois reatou relações diplomáticas do Brasil com a URSS após 13 anos.

Poucos dias depois do último comunicado, a CIA escreve outro, vendo a possibilidade de Moscou utilizar o projeto "como uma oportunidade para demonstrar a eficiência dos técnicos soviéticos e como os precursores de extensa ajuda para o desenvolvimento do xisto em cooperação com a Petrobras".

Em outubro de 1963, a espionagem estadunidense envia um relatório sobre as atividades econômicas do bloco sino-soviético em países do Terceiro Mundo. É dedicada uma página inteira às recentes atividades no Brasil, mas somente o resumo de um parágrafo foi disponibilizado no site da CIA. Informava das potencialidades para o desenvolvimento de petróleo na Amazônia e no nordeste do país, segundo um comunicado soviético enviado à Petrobras.